Durante o mês de setembro, as redes sociais ficam amarelas. Multiplicam-se campanhas, palestras e mensagens sobre saúde mental. Mas o que acontece quando o mês termina?
O sofrimento psíquico não desaparece com a mudança do calendário. Pessoas continuam enfrentando crises, pensamentos suicidas, solidão e dificuldades para encontrar ajuda em janeiro, abril, julho ou dezembro.
O Setembro Amarelo é necessário. Ele rompe o silêncio, amplia o debate e incentiva a busca por ajuda. O problema começa quando essa mobilização se limita a algumas semanas e, depois, perde espaço novamente.
Prevenir o suicídio exige mais do que uma campanha. Exige continuidade.
Um grave problema de saúde pública
Mais de 720 mil pessoas morrem dessa forma todos os anos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Para cada morte, muitas outras enfrentam tentativas ou convivem com pensamentos relacionados ao fim da própria vida.
No Brasil, o Ministério da Saúde também identifica um cenário preocupante. O panorama nacional publicado em 2024 aponta crescimento das taxas de mortalidade entre 2010 e 2021, além do aumento das notificações de lesões autoprovocadas.
Por trás desses números existem pessoas, histórias, famílias e comunidades atravessadas por uma dor que nem sempre encontrou acolhimento ou acesso ao cuidado.
Por isso, a prevenção precisa estar presente nos serviços de saúde, nas escolas, nas famílias, nos ambientes de trabalho e nas políticas públicas durante todo o ano.
Prevenção não se faz apenas com frases de efeito
Mensagens como “você não está sozinho” ou “peça ajuda” podem abrir uma porta importante. Entretanto, tornam-se insuficientes quando a pessoa não encontra serviços acessíveis, profissionais preparados ou uma rede disponível para acompanhá-la.
Uma prevenção efetiva envolve diferentes ações:
- acesso contínuo aos serviços de saúde mental;
- identificação precoce dos sinais de sofrimento;
- acolhimento sem julgamentos;
- acompanhamento de pessoas em situação de risco;
- intervenção qualificada durante as crises;
- apoio às famílias e às redes de convivência;
- capacitação de profissionais;
- redução do acesso a meios letais;
- combate ao estigma;
- políticas públicas permanentes.
Pedir ajuda é importante. Mas é igualmente necessário garantir que exista alguém preparado para receber esse pedido.
Como falar sobre suicídio com responsabilidade
Não basta abordar o assunto. É preciso saber como fazer isso.
Conteúdos alarmistas, imagens impactantes, descrições de métodos, exposição inadequada de histórias pessoais e discursos que romantizam o sofrimento podem provocar efeitos prejudiciais. A abordagem sensacionalista pode favorecer comportamentos de imitação, fenômeno conhecido como efeito Werther.
Também é necessário combater mitos que afirmam que pessoas em risco não dão sinais, assim como discursos que associam o sofrimento à falta de fé, fraqueza ou ausência de força de vontade. Além de equivocadas, essas ideias aumentam a culpa e podem afastar a pessoa do cuidado.
Por outro lado, a comunicação responsável pode ser protetiva. O chamado efeito Papageno descreve o potencial de narrativas que apresentam possibilidades reais de enfrentamento, busca por ajuda, tratamento e reconstrução da vida.
Uma comunicação segura não transforma a dor em espetáculo. Ela informa, acolhe e mostra caminhos possíveis.
Escutar não é corrigir a dor do outro
Diante de alguém em sofrimento, existe uma tendência de oferecer respostas rápidas:
“Você precisa ser forte.”
“Pense nas pessoas que amam você.”
“Há gente passando por coisas piores.”
Embora possam ser ditas com boa intenção, essas frases frequentemente fazem a pessoa se sentir ainda mais sozinha ou incompreendida.
Escutar não significa ter a resposta perfeita. Significa permitir que ela fale sem ser imediatamente corrigida, julgada ou moralizada. É reconhecer a seriedade daquilo que está vivendo e ajudá-la a construir uma ponte até o cuidado profissional.
Muitas vezes, a ideação suicida surge em meio a uma experiência de dor que parece insuportável e sem saída. A escuta qualificada pode ajudar a dar palavras ao que, até então, parecia impossível de comunicar.
Por que o Setembro Amarelo precisa ultrapassar setembro?
A crítica não é à existência da campanha. Setembro pode e deve ser um marco de visibilidade, educação e mobilização social.
O problema é acreditar que um mês seja suficiente.
Quando o assunto recebe enorme atenção durante algumas semanas e desaparece nos demais meses, cria-se uma contradição: fala-se intensamente sobre prevenção, mas pouco se sustenta em termos de cuidado continuado.
Quem está em sofrimento não precisa apenas de uma publicação inspiradora. Precisa de presença, acompanhamento, tratamento e uma rede que não desapareça quando setembro terminar.
Defender que esse cuidado continue durante todo o ano significa substituir a lógica do evento pela lógica da permanência.
Prevenir é sustentar caminhos para a vida
A prevenção ao suicídio precisa estar presente nas escolas que acolhem, nas famílias que escutam, nos ambientes de trabalho que reconhecem o sofrimento, nos serviços de saúde que oferecem continuidade e nas políticas públicas que garantem acesso ao tratamento.
Falar sobre o tema com responsabilidade é reconhecer que não existem explicações simples para uma dor tão complexa. É abandonar julgamentos e respostas prontas. É trocar o excesso de slogans por ações consistentes.
Porque prevenir não é apenas iluminar setembro de amarelo.
É sustentar, durante todo o ano, espaços onde a dor possa ser dita, acolhida e cuidada antes que pareça insuportável.
Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento intenso ou em risco imediato, procure o SAMU pelo número 192, uma unidade de emergência ou o Centro de Valorização da Vida pelo número 188. Em uma situação de risco, não deixe a pessoa sozinha.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico, Brasília, v. 55, n. 4, 2024.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Preventing suicide: a resource for media professionals — update 2023. Genebra: OMS, 2023.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Suicide: facts and figures globally. Genebra: OMS, 2025.